O Núcleo Coletivo 22 tem como marco de criação o espetáculo Em Qualquer Lugar, trabalho de conclusão do curso de Dança da Universidade Estadual de Campinas, desenvolvido por Renata Kabilaewatala e Ively Viccari, fundadoras do grupo.
Na capital paulistana, o grupo reúne artistas pesquisadores das culturas populares brasileiras, aprofundando esse traço identitário nas suas criações. Em 2010, com o ingresso de Renata Kabilaewatala como docente no curso de Dança da Universidade Federal de Goiás, o Núcleo Coletivo 22 passa a atuar também em Goiânia, cidade onde atualmente está sediado.
Com mais de duas décadas de trajetória, o Núcleo vem desenvolvendo pesquisas e práticas artísticas ancoradas numa linguagem híbrida, resultado do diálogo criativo entre dança, teatro, música e performances tradicionais. Essa linguagem é alimentada pela força do encontro entre artistas dessas áreas.
Sediado no Espaço Cultural Águas de Menino — um fundo de quintal que também acolhe a prática da capoeira angola, vinculada ao Centro de Capoeira Angola Angoleiro Sim Sinhô — o Coletivo realiza projetos, estudos, ensaios e vivências com foco em performances negras tradicionais, como o jongo, o afoxé e o tambor de crioula.
Criado no âmbito de uma instituição de ensino superior e com a participação de docentes, o Núcleo Coletivo 22 mantém uma relação estreita com o meio universitário, especialmente com a Universidade Federal de Goiás (UFG) — instituição onde grande parte do elenco atua profissionalmente ou recebeu sua formação. Em contrapartida, o grupo colabora frequentemente com a UFG em ações de pesquisa, ensino e extensão.
22 - O Louco
A escolha do número 22 reflete os interesses das fundadoras por aspectos místicos, míticos e simbólicos, que permeiam também os caminhos da criação artística do grupo. A inspiração veio dos arcanos do tarô, particularmente da carta de número 22, que também é a número 0, conhecida como “O Louco”. No tarô, essa figura representa um espírito livre, transgressor, aberto ao desconhecido e em constante movimento. O Louco caminha sem medo do abismo, guiado por sua intuição, curiosidade e desejo de viver intensamente o presente. Ele carrega apenas o essencial, abrindo-se para experiências não-lineares e não convencionais, imagem arquétipa que pareceu aderir.
Embora na prática o Núcleo Coletivo 22 esteja mais enraizado em lugares, memórias e afetos do que entregue à deriva errante, a ideia de intensidade — tão presente na figura d’O Louco — permanece como força orientadora de poética e de sua ação política. É na intensidade dos encontros, na escuta dos corpos, nas trocas com mestres e mestras dos saberes e fazeres tradicionais, nos rituais cênicos que entrelaçam dança, música e palavra, que o grupo encontra sua potência criadora.